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Na montra

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Na Casa-Museu João Soares foi lançado no dia 1 de Abril mais um livro de poesia da autoria de Carlos Lopes Pires, desta feita com o título “a minha poesia é uma ignorância”. Tem 176 páginas e foi produzido pela editora Textiverso. A apresentação foi feita por Pedro Jordão e por Luís Vieira da Mota, cabendo a Celeste Alves dizer alguns trechos deste livro que é dedicado a António Rêgo, recentemente falecido.

 

Pedro Jordão fez não propriamente uma apresentação do livro, mas um balanço apreciativo da obra do poeta, sublinhando ter já musicado umas dezenas de poemas dele. Disse, nomeadamente: «A poesia do Carlos [Pires] não é espectacular. Não ofusca, não faz impressão aos olhos de tão brilhante, não é bombástica, não nos abana os tímpanos como trombeta de anunciar façanha épica. Não sobressalta, não embasbaca, não assombra, não usa sapato de salto alto para parecer maior do que é.» Para considerar que «ele se limita a deixar fluir a sua poesia com a naturalidade serena de uma fonte de água límpida». Classificou  a edição como sendo «de um bom gosto que merece uma menção especial».

Por sua vez, Luís Vieira da Mota referiu que «o livro nem sequer trata do saber, ou de ciência; trata, fundamentalmente, do que resta após nos despojarmos dos lixos que pretensos saberes ou pretensas ciências depositam na nossa mente.» E acrescentou: «Todo este livro está escrito com letra minúscula, significando, com certeza, que não há palavras, como não deve haver seres, mais importantes, ou mais dignas, do que outras. Apenas o nome Deus, e nem sempre, aparece escrito com maiúscula.» Pare ele «este livro é… Olhem, não sei o que é, mas leiam-no e amem-no assim ou mais do que eu o amei.»

Finalmente, o próprio poeta discursaria sobretudo sobre o amigo Rêgo, mas não deixou de falar de poetas e de poesia. Fez primeiro um pequeno rodeio: «Creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. Algo que não conseguimos expressar. Uma espécie de segredo. Algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. A isto chamo o ponto cego da existência. É este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que as próprias coisas. O ponto cego da existência é, permitam-me o exagero, profundamente inalcançável. Aqueles que se atrevem a olhá-lo fazem-no por breves momentos.» Para depois concluir: «É talvez por isso que, de alguma maneira, o poeta é um estrangeiro. Por onde quer que vá, e enquanto tal, o poeta é sempre um estrangeiro, pois a poesia não é apenas do domínio do que do-que-não-há, como é igualmente do domínio do-que-não-se-tem.»

E, finalmente, revelar a sua concepção de poesia: «Creio na poesia como abertura para o Outro, pois é nele que se revela, igualmente, esse inalcançável ponto cego da existência. Creio numa poesia de generosidade, gratidão, dádiva, compaixão, perdão. Creio na poesia como o abraço entre dois amigos. Por isso, reafirmo: os amigos fazem crescer as árvores.»